Como a alimentação pode
interferir na aprendizagem de adolescentes?
Nosso papo de hoje é sobre uma
pesquisa que aponta para os perigos de uma dieta rica em açúcar e gordura para
o desenvolvimento não somente da obesidade, mas também de déficits cognitivos
permanentes em adolescentes.
A pesquisa a que me refiro foi publicada em Frontiers in behavioral neuroscience e pode ser acessada por aqui..
Já sabemos que o cérebro do
adolescente ainda não está plenamente desenvolvido (e quem tem adolescentes em
casa, como eu, sabe muito bem do que estou falando). Em geral, eles apresentam dificuldades
relacionadas à avaliação de riscos (previsão de consequências), são impulsivos,
têm oscilação frequente de humor e seu sistema de recompensas (área cerebral
responsável pelo prazer e pela motivação) está no auge da ativação, culpa da dopamina
(um neurotransmissor abundante no cérebro adolescente e que regula os aspectos
da neuroplasticidade e o sistema de recompensas).
O que isso significa?
Isso quer dizer que jogos, alimentos
gordurosos, alimentos açucarados, álcool e outros elementos que atuam na região cerebral do prazer, têm
seus efeitos prazerosos potencializados no cérebro do adolescente e podem gerar
neles uma maior propensão ao vício. É isso que causa essa compulsão por comidas estilo "porcaritos" (os famosos fast ou junk food) e faz com que seu filho não consiga
(isso mesmo, ele não consegue) largar o jogo eletrônico. Isso também faz com que sua filha passe os dias em redes sociais
seguindo aqueles influenciadores digitais (que, raríssimas exceções, não têm muitas
coisas boas a ensinar aos adolescentes) e faz com que os adolescentes tenham uma tendência ao abuso de substâncias (sejam elas lícitas ou ilícitas).
Agora que você entendeu por
que seus filhos trocam facilmente aquele almoço delicioso que você fez (com
todo amor e carinho) pelo palhaço dos hamburgueres, voltemos aos resultados da pesquisa.
A pesquisa aponta que “estudos
epidemiológicos identificaram associações entre obesidade em jovens e condições
psicológicas, incluindo impulsividade, ansiedade, abuso de drogas e transtorno
de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH; Waring e Lapane, 2008; Pagoto et
al., 2009; Cortese e Vincenzi, 2012)” e ainda que “o consumo excessivo de alimentos
ricos em açúcar e gordura” provoca mudanças duradouras no cérebro de adolescentes
(envolvendo regiões responsáveis pelo sistema de recompensas, pelas funções cognitivas
e pela motivação).
Em outras palavras: se o seu
filho adolescente tem uma dieta rica em açucares e gorduras, há uma forte tendência
a que o sistema de recompensas e motivação dele não seja acionado corretamente
para o estudo, algo geralmente cansativo, repetitivo e solitário (lembra da
minha postagem sobre "estudo x aprendizagem"? Se não se lembra ou ainda não
leu, veja a postagem aqui.).
A pesquisa relata ainda os déficits
de aprendizagem induzidos por dieta na formação da memória de longo prazo (exatamente aquela
responsável por consolidar a aprendizagem).
Não bastasse isso tudo, uma
alimentação com excesso de açúcar e gordura, compromete a reatividade emocional
de adolescentes e provoca efeitos importantes em áreas cerebrais estreitamente
ligadas à aprendizagem e memória.
Constata-se a vulnerabilidade
dos adolescentes ao impacto neurobiológico do excesso de gordura e açúcar na
dieta. Esses impactos são sentidos seja pela “redução duradoura na neurogênese”
(processo de formação de novos neurônios no cérebro), seja pelo “aumento de
reações neuroinflamatórias.”
De acordo com a pesquisa, quanto mais o sistema de recompensas é ativado pelo consumo de gorduras e açúcar, mais os adolescentes aumentarão a “dose” desses alimentos em sua dieta e mais acentuadas serão as alterações nos processos neuronais, prejudicando, cada vez mais, a maturação cerebral dos adolescentes. Entra-se, portanto, em um círculo vicioso do qual é difícil sair.
A pesquisa conclui que “a consequência
fisiológica do aumento do consumo global de dietas com excesso de açúcar e
gordura não é simplesmente o aumento da prevalência de obesidade” (o que, por
si só, já seria motivo de preocupação), “mas também disfunção cognitiva,
déficits de memória e aumento do risco de desenvolver transtornos psiquiátricos
em uma população mais jovem.”
Apesar de todos esses efeitos prejudiciais do excesso de gordura e açúcar na dieta dos adolescentes, precisamos ter em mente que ambos (gordura e açúcar) são fundamentais para o desenvolvimento e a manutenção da vida do ser humano em todas as etapas da vida. Por isso, cuidar da dieta não significa retirar esses alimentos da mesa de sua família, mas, sim, equilibrar todos os grupos alimentares para uma vida saudável. Exceção, claro, para os que têm alguma restrição médica, como os diabéticos, hipertensos, aqueles que têm doenças cardiovasculares, entre outros.
Resumindo: da próxima vez que você
perceber que seu filho ou filha está com dificuldades de aprendizagem,
dificuldades de memória, está mais agitado, ansioso ou desmotivado, vale dar uma
olhada também na sua despensa, além de buscar ajuda profissional de uma
psicopedagoga.
Geisa Melo Neves
Educação Aplicada
Psicopedagoga
Especialista em Neuropsicologia Educacional
Mestre em Educação
Pesquisadora e divulgadora científica

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