Vamos viajar no tempo?
Voltemos à nossa adolescência.
Cena comum à época era, ao recebermos visitas em casa, a nossa mãe abrir os
álbuns de fotografias e exibi-los aos visitantes.
Como você se sentia naquela
época quando as visitas eram “suas”: seus amigos de escola, da rua ou, pior,
um(a) garoto(a) que você paquerava? Guarde essa memória com carinho e daqui a pouco
retornaremos à ela.
Voltemos à 2020.
Na cena de um filme postado
nas redes sociais estão duas crianças. A mais nova está comemorando 3 anos de
vida. De pé sobre uma cadeira, aguarda ansiosa o momento em que, finalmente,
apagará as velinhas. A mais velha, 6 anos, também de pé, ao lado da cadeira da
irmã, observa tudo com uma possível pontinha de ciúme de toda a atenção que a
mais nova recebe nesse momento.
Ao final do “parabéns”, a menina
de 3 anos se abaixa para apagar as velinhas e a mais velha, aproveitando-se da
falta de agilidade da mais nova, apaga-as antes da irmã. Feliz por ter
conquistado a atenção de todos, ainda que por um breve momento, a mais velha
não percebe que a mais nova, enfurecida, se aproxima de seus cabelos e os
agarra sem dó. Entre risadas dos adultos e gritos de “para, fulana”, um adulto
se aproxima e retira os cabelos da irmã mais velha das mãos da irmã mais nova
que, a essa altura, duplamente irritada (por não ter apagado a velinha e por
ter sido impedida de descontar sua raiva na irmã para aplacar sua raiva) chega a se
auto agredir e, na sequência, aproveitando-se de nova distração dos adultos por
perto, se agarra uma segunda vez com força aos cabelos da irmã mais velha até uma
nova intervenção de um adulto presente àquela cena.
Confesso que, à primeira
vista, o vídeo tirou de mim uma gostosa risada. Por alguns instantes, viajei no
tempo e me vi, na década de 80, disputando com meu irmão a atenção e carinho de
nossa mãe. Fez-me viajar, também, à infância dos meus próprios filhos que,
pasmem, acompanhavam avidamente com os olhos até a quantidade de água que eu
colocava em cada garrafinha que eles levavam para a escola só para saber se eu
havia colocado exatamente a mesma quantidade de água na garrafinha de cada um.
E quando isso não acontecia, diziam que eu havia favorecido o outro.
Pode-se mesmo dizer,
ainda que em tom de brincadeira, que “Quem nunca teve uma briga “daquelas” com
seus irmãos na infância não viveu a infância direito.”
Sinceramente, não vi nada de “anormal
ou patológico” na atitude de nenhuma das irmãs.
A mais velha, com 6 anos, ainda
aprendendo a lidar com a “invasora”, se ressente com a atenção e o carinho que
a mais nova (merecidamente) recebe em seu aniversário. Ainda não tem estruturada
a noção de tempo nem aprendeu a resgatar na sua memória os momentos felizes de
seus próprios aniversários para saber que, cada uma em seu respectivo
aniversário, recebe os mesmos carinho e atenção que dispendemos nessas datas
especiais aos aniversariantes do dia.
A mais nova, com 3 anos, ainda
tem um resquício de percepção de que o mundo gira em torno do seu umbigo. Superar a frustração? Sequer sabe o que é isso e, quando tem de lidar com esse sentimento,
tem a reação própria dessa faixa etária: choro, grito, violência física (em si
mesma e nos outros) para demarcar seu território e demonstrar sua insatisfação.
Ambas com reações absolutamente normais e que, de nenhuma forma, poderiam nos levar a supor que não nutrem um sincero amor de irmãs uma pela outra. São irmãs, se amam e, muito provavelmente, apesar do amor e, por causa dele, ainda viverão muitas brigas.
Estranhamento me causaria se,
naquele momento, a mais velha parasse a festa para verbalizar que toda aquela
atenção dada a sua irmã estava lhe fazendo sentir muito mal e que, por isso,
para não atrapalhar o momento da irmã, que ela ama incondicionalmente, se
recolheria ao seu quarto e de lá, só sairia quando se sentisse melhor.
Ou ainda, se a mais nova,
irritada pela atitude da mais velha, olhasse em seus olhos e dissesse que
aquela atitude era inaceitável, que amava muito a irmã, mas que não admitiria
tal comportamento de uma próxima vez. E então pedisse que alguém reacendesse a
velinha para que pudesse apagá-la SOZINHA (frisando essa última palavra com um
tom mais grave para que a mais velha compreendesse que falava sério).
Reafirmo que a reação de ambas
as irmãs no vídeo descrito é absolutamente comum e dentro do que se espera para
essa faixa etária. O que não é esperado nem aceitável são os insultos que, de
acordo com a pessoa (adulta) que divulgou o vídeo na rede social, as crianças e
a família estão recebendo.
Não cabe a mim julgar aqui o
que poderia ou não ter sido feito. Esse texto tem por objetivo provocar uma
reflexão a respeito de algo cada vez mais comum, mas que vem causando conflitos
e, até mesmo, questões judiciais.
Você já escutou falar de
“Sharenting”?
“Sharenting” é um termo em
inglês que reúne duas palavras: share + parenting, e que, na prática, significa o
compartilhamento de dados (inclusive de imagens) de crianças e adolescentes por
seus pais ou cuidadores.
E qual é o problema de os pais
compartilharem imagens e dados de seus filhos na internet?
Em primeiro lugar, lembra da
nossa primeira viagem no tempo? Lembra dos seus sentimentos, quando
adolescente, sobre o compartilhamento de suas imagens e histórias de vida pelos
seus pais? Àquela época, esse “Sharenting” era restrito aos vizinhos,
familiares e amigos da família. Agora imagine isso em uma escala mundial. O
compartilhamento de suas imagens e dados com pessoas que você não conhece ou
com seus colegas de trabalho te fariam sentir como? Invadido, constrangido,
embaraçado, feliz, empolgado?
Agora pense como seu(sua) filho(a) reagirá quando, já adolescente, perceber que toda a vida dele está nas redes
sociais? Pode ser que ele goste? Sim! Afinal, essa geração tem uma certa
facilidade em mesclar vida privada e vida pública.
Mas...E se o(a) seu(sua) filho(a) não
gostar? E se ele(a) odiar o fato de ter tido sua vida exposta nas redes sociais? E se ele(a) perder oportunidades de trabalho pelas fotos que você publicou nas redes sociais? E
aí? O que fazer?
Agora vem a parte mais
triste... Pouco ou nada poderá ser feito... Especialistas em tecnologias são
quase unânimes em dizer que dados e imagens expostos na internet, dificilmente
serão totalmente apagados. Sempre haverá o risco de alguém (ou várias pessoas)
ter salvado, copiado os arquivos e continuar a repostá-los, apesar dos pedidos
(ainda que judiciais) contrários.
Além disso, que controle temos
sobre os usos que esses dados e imagens terão? Quem os terá? Quem os utilizará?
Para que utilizarão esses dados e essas imagens?
Reportagem da BBC News, de
maio de 2018 (disponível na íntegra aqui) alerta:
“O banco (Barclays) diz que os
pais estão comprometendo a segurança financeira futura de seus filhos com tanto
compartilhamento online.” Isso porque, de acordo com o banco “os pais podem
revelar nomes, idades e datas de nascimento em mensagens de aniversário,
endereços residenciais, locais de nascimento, nome de solteira da mãe, escolas,
nomes de animais de estimação, times esportivos que eles apoiam e fotografias.
O Barclays alerta que tais detalhes, que ainda estarão disponíveis quando os
jovens forem adultos, podem ser usados para empréstimos fraudulentos ou transações
com cartão de crédito ou golpes de compras online.”
Leah Plunkett, professora da University
of New Hampshire, em seu livro Sharenthood, também aborda o tema e traz alertas
bastante pertinentes, inclusive sobre o alcance do termo Sharenting que, para
ela, abarca também outras plataformas além do Instagram, Tweeter e Facebook e
outras pessoas que lidam com as crianças, como avós, professores e cuidadores. Segundo
ela, qualquer pessoa que “transmite, publica, armazena ou se envolve em
quaisquer outras atividades sobre informações privadas de crianças usando
tecnologia digital” [..] cria um dossiê muito real de informações sobre uma criança
que todos precisam considerar antes de postar.” (entrevista na íntegra aqui).
A Revista Brasileira de Políticas
Públicas, da UNICEUB, aborda o tema em sua edição de Dezembro de 2017 (disponível aqui), em
artigo de Fernando Büscher von Teschenhausen Eberlin, ressaltando também dois
outros aspectos importantes a exposição de comportamentos infantis à opinião pública
e a perenidade dos arquivos postados na internet:
“Com efeito, no mundo contemporâneo,
comportamentos que outrora expunham crianças, mas que eram de certa forma
controlados, não possuem, atualmente, a mesma possibilidade de controle. A esse
respeito, Oswald, James e Nottingham estudaram a dinâmica de um documentário de
televisão sobre a vida de crianças de 4, 5 e 6 anos (acesse o artigo aqui). Antes
do advento das redes sociais, o documentário seria exibido, repercutiria durante
algum tempo, e, possivelmente, seria esquecido pela maioria das pessoas. Nos dias
de hoje, no entanto, paralelamente à exibição do documentário, os telespectadores
podem compartilhar comentários em redes sociais (especialmente o Twitter) a
respeito das crianças que participam do programa. Tais comentários não podem
ser controlados e são feitos e visualizados na internet por pessoas que não têm
nenhuma relação com o círculo familiar ou de amizade dos pais. O conteúdo a
respeito da criança na internet não cairá no esquecimento como o documentário
televisivo, na medida em que ficará acessível na rede, podendo vir à tona anos
depois.
Como se vê o tema é complexo,
envolve muitos direitos e, principalmente no Brasil, a legislação não deixa
claro os limites a seguir. No entanto, a Constituição Federal e o Estatuto da
Criança e do Adolescente garantem às crianças e aos adolescentes o direito à preservação
da imagem e da identidade e estabelecem como dever de todos a proteção desses
direitos.
Além disso, a UNICEF, na
Convenção dos Direitos da Criança (acesse aqui), também assegura às crianças o
direito à privacidade e ressalta que “Quando os adultos tomam decisões, eles devem
pensar em como suas decisões afetarão as crianças.”
Como podemos então minimizar
os riscos e danos futuros aos nossos filhos:
- ü Antes de postar qualquer dado do(a) seu(sua) filho(a) (inclusive imagens) pergunte-se como você se sentiria se aquele dado ou imagem sua fosse divulgado. Você se sentiria constrangido, triste, embaraçado? Aquela imagem poderia tê-lo impedido de conseguir o emprego que você tem hoje? Aquele dado ou imagem poderiam tê-lo impedido de conquistar o que você possui hoje?
- ü Avalie
se os possíveis riscos e danos compensam a exposição dos dados do seu filho.
- ü Se o(a)
seu(sua) filho(a) já é adolescente pergunte a ele se permite que você poste
aquele dado ou imagem dele(a).
- ü Se na
imagem há outras crianças e/ou adolescentes, pergunte aos responsáveis por eles se autorizam a publicação (de preferência peça essa autorização por escrito ou não
poste).
A título de curiosidade: reportagem do USA Today, de 16 de setembro de 2016 (você pode acessá-la na íntegra aqui) relata o caso de uma garota de 18 anos que processou seus pais por publicarem fotos suas no facebook. O caso aconteceu na Áustria.
Esse tema não se esgota por aqui. Como primeira geração de pais que lidam com as redes sociais estamos aprendendo a cada dia. Ouvir o que especialistas têm a dizer sobre o tema e discutir o assunto em família são uma boa maneira de evitar que a diversão de hoje se transforme no problema de amanhã.
Geisa Melo Neves
Psicopedagoga
Mestre em Educação
Especialista em Neuropsicologia Educacional

Geisa,
ResponderExcluirMe senti provocada e super desconfortável com as verdades que seu texto traz. A gente, como mãe, nunca se vê pensando em como essas imagens fofinhas/engraçadas podem expor os nosso filhos, sempre postando situações, aparentemente inofensivas, do cotidiano deles. Internet é terra de ninguém. Obrigada por ter elucidado tão bem o tema.
Nane, como mãe, também estou aprendendo a lidar com essas novas ferramentas, pois não fomos educados na era da internet e não conseguimos imaginar todas as maldades que cercam esses ambientes virtuais (aparentemente tão seguros).
ExcluirQuanto mais estudo esse tema, mais assustada fico e mais importante considero divulgar essas informações para o maior número de pessoas.
Que bom que o texto conseguiu provocar reflexão. Fico feliz com seu comentário! Obrigada!