Redução da massa cinzenta como sequela da COVID-19



A neuropsicologia já detectou prejuízos em funções cognitivas e executivas ocasionadas pela COVID-19. Agora, exames de ressonância magnética detectaram alterações estruturais no cérebro: a redução da substância cinzenta (constituída de neurônios), de acordo com pesquisadores da Georgia State University e do Instituto de Tecnologia da Georgia.
Quais são as consequências dessa redução? As mais variadas possíveis, pois qualquer ato mental é realizado por um sistema neurofuncional complexo, por circuitos neuronais, que dependem uns dos outros para o pleno funcionamento do cérebro.

A massa cinzenta é essencial para o processamento de informações, e, de um jeito muito resumido, é a responsável pelo planejamento, organização, controle inibitório, atenção, linguagem, compreensão e execução de tarefas.

Traduzo os trechos mais relevantes do artigo científico publicado na revista Neurobiology of Stress, volume 14, May 2021 e disponibilizo as fontes consultadas para quem quiser acessar o original (aqui e aqui)

“Os pesquisadores, afiliados ao Centro de Pesquisa Translacional em Neuroimagem e Ciência de Dados (TReNDS), analisaram exames de imagem de 120 pacientes neurológicos, incluindo 58 com COVID-19 e 62 sem COVID-19, pareados por idade, sexo e doença. Utilizaram análise de morfometria baseada na fonte, o que aumenta o poder estatístico para estudos com um tamanho de amostra moderado.”

"A ciência mostrou que a estrutura do cérebro afeta sua função, e imagens cerebrais anormais surgiram como uma característica importante do COVID-19”, disse KuaiKuai Duan, o primeiro autor do estudo.”

“A análise mostrou que os pacientes com níveis mais elevados de deficiência apresentaram menor volume de substância cinzenta nos giros frontal superior, medial e médio na alta hospitalar e seis meses depois. Pacientes submetidos à oxigenoterapia tiveram significativa redução da substância cinzenta em giros frontais superior, medial e médio quando comparados aos que não foram submetidos à oxigenoterapia.”

“Pacientes com febre apresentaram redução significativa no volume da substância cinzenta nos giros temporais inferior e médio e no giro fusiforme em comparação com pacientes sem febre.”

“A redução da massa cinzenta nos giros frontal superior, medial e médio também estava presente em pacientes com agitação em comparação com pacientes sem agitação. Isso implica que as mudanças na massa cinzenta na região frontal do cérebro podem estar subjacentes aos distúrbios de humor comumente exibidos por pacientes com COVID-19.”

“Os resultados sugerem que Covid-19 pode afetar a rede frontal-temporal por meio de febre ou falta de oxigênio.”

“É importante ressaltar que as alterações de substância cinzenta na rede frontal-temporal identificada podem prever os níveis de deficiência individual na alta e em 6 meses, o que implica que a rede frontal-temporal pode ser potencialmente empregada com um biomarcador para prognóstico e avaliação do tratamento de COVID-19.”

A partir desses resultados, algumas reflexões são muito importantes e não podem ser adiadas:

Que implicações práticas os sobreviventes da COVID-19 com sequelas neurológicas terão em suas vidas cotidianas?

As alterações detectadas podem ocorrer também em crianças e adolescentes (que ainda nem completaram o desenvolvimento do seu córtex pré-frontal)?

Nesse caso, quais serão as consequências para a aprendizagem deles?

Os professores estão capacitados para lidar com tais sequelas?

Os gestores/escolas darão o suporte necessário à equipe pedagógica para que os danos à aprendizagem sejam minimizados?

Os indivíduos afetados poderão reverter completamente os danos cerebrais provocados pela COVID-19?

A neuroplasticidade será suficiente para compensar os danos?

Que políticas públicas serão colocadas em prática para o atendimento de todos os sobreviventes da COVID-19 que apresentarem sequelas?

As respostas a essas e tantas outras perguntas, provavelmente, virão com o tempo e muitas pesquisas científicas, porém, podemos ter certeza de que o atendimento multidisciplinar de profissionais da educação e da saúde é o melhor e único caminho possível para proporcionar a essas pessoas perspectivas de reversão de seus quadros ou de, em cenários mais complexos e menos promissores, no mínimo, promover a redução de danos a ponto de permitir àquelas uma vida funcional.

Geisa Melo Neves
Psicopedagoga
Especialista em Neuropsicologia Educaional
Mestre em Educação

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