A escola dos meus filhos tem uma equipe de apoio (secretárias, inspetores e responsáveis pela limpeza) que cuidam das crianças e adolescentes e do espaço de convivência deles, todos os dias, da melhor maneira possível.
A escola dos meus filhos tem professores afetuosos que com beijos, abraços ou apertos de mão falam aos meus filhos: sejam bem-vindos, nós nos importamos e cuidamos de vocês.
A escola dos meus filhos é barulhenta, viva, cheia de energia de crianças e adolescentes que tem ali um lugar de aprendizados incríveis e que vão muito além do ensino da matemática, da língua portuguesa, das ciências e tantas outras disciplinas acadêmicas.
A escola dos meus filhos tem bagunça na troca de professores, tem papo de corredor, tem brincadeiras, joelhos ralados que são curados com beijos e colos carinhosos das professoras, tem fila na cantina, barulho no recreio, tem música, tem dança, tem esporte ao ar livre e na quadra. Tem selfie no banheiro, tem namoros rompidos que são curados por abraços dos amigos, tem papo despreocupado, risadas, alegrias, toque, proximidade.
A escola dos meus filhos tem laços de amizade que ultrapassam os muros da escola e que se estendem às famílias e ao término da educação básica, amizades construídas na vida escolar que seguem pela vida de cada um deles.
A escola dos meus filhos também tem conflitos que ensinam a eles que ser diferente é normal e que o mais importante é o respeito e a boa convivência com o outro.
Aí veio a pandemia. E tudo
isso parou!
A escola dos meus filhos hoje é espaço físico que escancara a ausência e, por isso, provoca lágrimas. Tem um silêncio que dói.
Mas a alma da escola dos meus filhos está na minha casa. Os professores se capacitaram em tempo recorde e conseguem entregar a eles uma aula remota de qualidade impressionante.
Sei que as aulas remotas, por melhor que sejam, não superam os benefícios da aula presencial com seus encontros, trocas e laços afetivos que se fortalecem na convivência presencial diária.
Acreditem, meus filhos sentem muita falta da escola (espaço físico) e do contato presencial com professores e amigos (muita falta mesmo!)
Mas... Voltar às aulas presenciais agora?
Como?
Sem abraços, com distância, com máscara, sem sorrisos?
Essa não é a escola dos meus filhos. A escola dos meus filhos é espaço de afeto, de afago, de carinho, de brincadeiras, de laços afetivos que se fortalecem a cada gesto, a cada toque, a cada palavra, a cada sorriso!
Meus filhos querem sim voltar às aulas presenciais, mas quando for possível se relacionar normalmente, sem se preocupar com distanciamento social, máscara e álcool em gel. Eles querem voltar às aulas presenciais no verdadeiro normal, não no “novo normal”.
Voltar ao presencial é provocar estresse adicional à equipe pedagógica (que tem feito um ótimo trabalho no ensino remoto) para que adaptem conteúdos e comportamentos a uma nova realidade nunca antes vivenciada. É provocar estresse adicional aos alunos que terão que obedecer a protocolos rigorosos de distanciamento social e higiene.
Voltar em setembro? Em outubro? Em novembro? É justificável todo esse movimento tão próximo do fim do ano letivo de 2020?
Retornar ao ensino presencial é expor profissionais, alunos e famílias a um risco desnecessário e, ao meu ver, injustificável.
Como trabalhar com as consequências psicológicas de tanto tempo de distanciamento social? Reabrir as escolas é a solução? Há quantos alunos necessitados de uma atenção maior e quantos psicólogos temos nas escolas para atendê-los? Isso quando temos a sorte de poder contar com esses profissionais no quadro fixo de funcionários das escolas. Na maioria das escolas brasileiras, isso não é uma realidade.
Vamos "jogar" mais essa responsabilidade "nas costas" dos professores além da responsabilidade que eles já assumirão de retomada de conteúdos, da recuperação desses conteúdos, dos ajustes de cronograma e metodologias do ensino remoto para o presencial e, claro, da fiscalização dos comportamentos dos estudantes para que não descumpram os códigos sanitários?
E quanto aos estudantes que permanecerem em casa como fazê-los compreender conteúdos ministrados por professores com máscaras (já que os professores não estarão mais sozinhos e utilizarão máscaras para protegerem a si e aos alunos)?
Meu mais sincero desejo é que isso tudo passe logo, bem rápido, para que possamos voltar ao verdadeiro normal, o da proximidade e dos afetos presenciais. Para isso nos resta esperar pela vacina ou pela descoberta de uma cura completa para essa doença que permita aos infectados viver sem sequelas.
Voltar às aulas presenciais não fará a vida voltar ao antigo normal e nem é a solução para todos os males psíquicos decorrentes desse momento de distanciamento social prolongado que estamos vivenciando desde março de 2020.
A escola dos meus filhos é mais que um prédio construído com concreto e tijolos. A escola dos meus filhos é construída com muitas mãos que se unem para educar academicamente e construir laços afetivos entre seres humanos. A parte acadêmica o ensino remoto, com todas as suas limitações, consegue dar conta. Já os laços afetivos, incompletos no meio virtual, esses serão retomados com toda a força e vigor da presença quando estivermos seguros de que vidas não serão colocadas em risco pelo contato físico afetuoso como deve ser.
A escola dos meus filhos é assim. Tenho certeza de que muitas escolas pelo Brasil (privadas ou públicas) também são bem mais do que concreto e tijolos empilhados. Esse texto é uma pequena homenagem a essas escolas que são a alma e o coração de todos que ali convivem. Escolas vivas no sentido mais verdadeiro do termo. E a dos seus filhos? Me conte um pouco sobre a realidade da escola dos seus filhos. Se ela é assim, eles também não precisam voltar às aulas presenciais agora. Se ela não é assim, talvez seja o caso de pensar em não retornar jamais. Escolas precisam ser alma e coração e devem ensinar convivência e afeto, além das disciplinas obrigatórias por lei.
Observações importantes sobre o texto:
1) Esse texto é uma homenagem às escolas e profissionais de educação que se dedicam a ensinar não somente leitura, escrita e aritmética; mas também a pensar e a construir laços afetivos.
2) Sei que a realidade das escolas brasileiras é diversa e que muitas escolas, por mais que tentem ser melhores a cada dia, esbarram em falta de dinheiro e infraestrutura para conseguirem dar todo o suporte de que seus estudantes e familiares necessitam.
3) Sei também que apesar das adversidades e dos problemas que enfrentam (falta de dinheiro, falta de infraestrutura, contextos de violência extrema), muitas escolas brasileiras conseguem dar um suporte educacional e afetivo incrível aos seus estudantes e familiares por causa dos esforços individuais dos membros de sua equipe pedagógica.
4) Por fim, acrescento que eu sou fruto da educação pública do RJ e, portanto, conheço de perto muitas dificuldades que as escolas públicas enfrentam, mas também conheço muitos profissionais de escolas públicas que dedicam sua vida incansavelmente para fazer a diferença na vida de seus alunos e famílias. Eu sou o produto de vários professores que, sem recursos e muito mal remunerados, fizeram a diferença na minha vida quando eu ainda era criança/adolescente.

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