Eu sei, eu sei...É tentador...
Chegamos em casa cansados
depois de um dia exaustivo de trabalho. Há coisas por fazer em casa. A agenda
do seu filho está te chamando para assiná-la. A criança já está sem paciência para
qualquer coisa que não seja brincar e curtir um pouquinho o papai e a mamãe.
Você percebe que há duas folhas de tarefa de seu filho que está sendo
alfabetizado na escola. Duas folhas? E a criança “travou” na primeira pergunta.
Não é culpa dela. Ela quer você. E a lição, na cabecinha dela, é um obstáculo
para ter você.
O jantar está por fazer ou,
na melhor das hipóteses, caso você possa contar com o auxílio de uma funcionária,
precisa ser esquentado para ser consumido e, após essa merecida e curta pausa
para o jantar, há uma pia abarrotada de louça exigindo sua presença e atuação
vigorosa.
É... o cenário não é nada
animador...
Atualmente, com o isolamento
social imposto pela pandemia de COVID-19, muitos perderam a ajuda das
funcionárias e têm de lidar com a limpeza da casa, das roupas, o trabalho
remoto que se estende da hora em que abrimos os olhos até o horário em que nos
deitamos, exaustos, buscando um sono que nos repare desse sufoco.
Ah... E não esqueça das
aulas remotas das crianças e adolescentes.
Esses seres tão adoráveis, mas tão imaturos (culpa desse cérebro em
formação), que insistem em aproveitar que não precisam mais ir para a escola
para dormir até mais tarde, assistir aulas de pijama, preferencialmente
deitados na cama, entre uma olhada no celular e uma “fugida” na cozinha, pois insistem
em comer 10 vezes por dia (haja alimentos para esse cérebro e esse corpo em
formação!) o que te faz praticamente morar na cozinha e visitar os parentes nos
outros cômodos.
A professora vai começar a
aula. Acorda fulano. Toma teu café, retire esse pijama... E a criança se
enrosca na coberta, colocando à prova sua paciência que já não está lá essas
coisas, pois no centésimo dia de confinamento, a gente já acorda com o saldo da
paciência no vermelho e não há banco que faça empréstimo desse artigo de
luxo...
O chefe começou a reunião, você
fica com “um olho no gato e outro no peixe”, prestando atenção na reunião sem
deixar de observar a aula on-line do seu filho.
Depois do almoço, outro “round”
de louças: ao combate! E tirar as roupas da máquina, sentar ao lado do filho
para conferir se ele anotou as tarefas e se já as fez. Corre para a próxima
reunião. Ou para o e-commerce. Ou para novos rounds na cozinha (caso você seja
um dos milhões de brasileiros que foi forçado a migrar do trabalho no
escritório, indústria ou comércio para a gastronomia. Não importa o trabalho
que você exerça. Você precisaria de um dia com 72 horas para pensar em dar
conta de tudo que precisa fazer. E para quem não tem uma atividade remunerada o
trabalho também não é pouco. São essas pessoas que realizam, diariamente, um
trabalho invisível que dá o suporte necessário às atividades de toda a família.
Na primeira semana, você
jurava que não ia durar... Mas no centésimo dia não há palestra da Monja Coen
ou missa do Padre Fábio de Melo que te cure dessa angústia e dessa vontade de “matar
um”.
E agora, em julho,
trancafiado em casa desde março, você realmente não tem mais paciência para
aturar choro de criança que não quer assistir aula online; Manha de criança que
insiste em não fazer a lição de casa ou para convencer seu filho adolescente (que
prefere passar horas jogando com os amigos) que ele tem que prestar atenção nas
aulas e estudar, nem que seja um pouquinho...
E aí... Aquelas duas folhas
de exercícios do seu filho que está sendo alfabetizado ou aqueles exercícios de
matemática do 5º ano que seu filho não consegue resolver ou o questionário de
história que a sua filha pré-adolescente insiste em deixar para depois são
assumidos como responsabilidade sua. Estamos em julho e essas crianças ainda
não aprenderam o que precisavam... Perderão o ano?
Nesse momento, por mais que
isso vá contra os seus princípios, você desenha a letra A, junta as letras da
palavra bola e relê em voz alta com a criança todas as palavrinhas do
exercício... Faz os cálculos matemáticos do seu filho e, apesar de tentar não
responder tudo, é vencido pelo cansaço, afinal, amanhã começa tudo de novo, bem
cedo aliás. O questionário de história também entra para o pacote “papai/mamãe resolve”
e depois a filha relê (quando ela não estiver com as amigas no WhatsApp ou
quando não estiver dormindo porque ficou até tarde da noite no WhatsApp com as
amigas...)
Eu não te culpo! Está
difícil mesmo!
Entenda, estamos todos
exaustos!
Seus filhos também (muitas
vezes ao longo do dia, diga-se a verdade) não te aguentam mais. Sim, a
reciproca é verdadeira para o bem e para o mal.
Estávamos todos acostumados
a ter uma folga dos “parentes”. O trabalho, a escola, eram momentos em que estávamos
longe uns dos outros por algumas horas e isso é muito saudável para as relações
familiares.
E, se já não era fácil
naquela época (coisa de três meses atrás, por incrível que pareça), imagine
agora.
Mas perceba que, fazer a
lição de casa pelo seu filho não ajuda em nada. Muito pelo contrário, prejudica
a aprendizagem dele. E sabe por quê?
Em primeiro lugar, toda vez
que você faz a lição pelo seu filho a mensagem que você está passando para ele é
de que ele não é capaz de fazer a lição, que ele não é capaz de aprender. Sem
querer, você acaba causando um problema de autoestima no seu filho. E isso é
algo que pode acompanha-lo por muito tempo (quem sabe a vida inteira) e que,
muito provavelmente ele pode transpor para outros campos da vida dele. Eu tenho
certeza de que você não pensa isso do seu filho e que não quer que ele pense
isso de si mesmo.
Em segundo lugar, fazer a
lição pelo seu filho impede que ele aprenda. A aprendizagem é uma ação de dentro
para fora que depende das ações de terceiros e do ambiente em que vivemos. Só o
seu filho pode aprender por ele. Quando você faz a lição pelo seu filho você
atrasa o desenvolvimento dele (coordenação motora, letramento, comportamento,
assunção de responsabilidades dentre outras habilidades fundamentais para a
vida dele no momento atual e no futuro).
Em terceiro lugar, fazer a
lição pelo seu filho tira da escola a responsabilidade e a possibilidade de
intervir na aprendizagem dele. É claro que a professora do seu filho sabe que
aquele desenho pintado com equilíbrio de cores e todo dentro do traçado não é
do seu filho de 4 anos (porque o desenvolvimento motor de uma criança de quatro
anos faz com que ela ainda não controle o lápis de cor tão perfeitamente). É
claro também que se a aluna do 4º ano que sempre tem dificuldades para escrever
textos aparecer, de repente, com um texto 100% ortograficamente correto e com
coesão e coerência a professora saberá que não foi ela quem escreveu.
Entretanto, o ano letivo de
2020 começou em fevereiro e em março todas as crianças e adolescentes foram
mandadas para casa. Muitas professoras estavam começando a conhecer seus
estudantes. Não tiveram tempo de convivência presencial suficiente para
identificar quais seus pontos fortes e quais seus pontos fracos. Por isso,
quando você pai ou mãe faz a lição pelo seu filho, a professora, que recebe o
trabalho bem feito, imagina que seu filho assimilou o conteúdo dado. Se, ao
contrário, seu filho não entregar a lição porque não a compreendeu ou a
entregar de maneira incompleta, a professora terá uma medida do que seu filho
já atingiu e o que ainda falta e poderá auxiliá-lo a superar as dificuldades.
Nem vou comentar sobre as
avaliações diagnósticas que algumas escolas têm realizado para, como o nome
diz, conseguir um diagnóstico das dificuldades que os alunos estão enfrentando
para assimilarem os conteúdos ministrados. Se fazer a lição do seu filho já
provoca tantos estragos, imagine fazer a avaliação diagnóstica por ele?
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