O ano letivo de 2020 está perdido?

Como mãe essa pergunta me aflige desde março. A partir daí tenho observado o que acontece na minha casa (com meus filhos e sua escola), tenho ouvido relatos de pessoas que moram em outros lugares do país, tenho acompanhado notícias sobre o que acontece no Brasil e no mundo e tenho lido muito a respeito para entender o que tem acontecido com as escolas nesse período. Confesso, refleti muito a respeito desse tema, desde que as escolas foram obrigadas a fechar suas portas por causa da pandemia de COVID-19.

Depois de muito refletir, posso afirmar que minha resposta é otimista: não.

O ano letivo de 2020 não está perdido!

Claro que o caminho tem sido difícil.

Obstáculos de diferentes tamanhos impuseram suas presenças nas escolas (agora virtuais), mas eles não nos impediram de avançar (e muito!).

Escolas públicas e privadas não têm medido esforços para conseguir entregar aos estudantes uma educação de qualidade.

E por falar em obstáculos, claro que sei e é notório que os obstáculos dos estudantes de escolas públicas são maiores, a despeito do absurdo e da injustiça desse fato, uma situação que já deveria ter sido superada. Mas não foi. E o que a pandemia de COVID-19 fez, nesse ano de 2020, foi escancarar um abismo (que volto a dizer, sempre existiu) entre estudantes de escolas públicas e privadas.

Se a situação já seria grave em outros contextos, pré-pandemia, agora, tornou-se insustentável. Sem internet e com escolas fechadas, a vida educacional de milhares de estudantes brasileiros ficou muito prejudicada e até impedida de acontecer.

Porém, isso não justifica o cancelamento do ano letivo de 2020. Porque o que vejo acontecer, nesse ano letivo de 2020, é um esforço coletivo que evidencia como a educação é ainda mais fundamental do que era antes.

De uma hora para outra milhares de professores de escolas públicas e privadas se transformaram em roteiristas, produtores e editores de vídeo para adaptar os conteúdos das aulas presenciais ao ensino remoto para que seus estudantes mantivessem seus vínculos com a aprendizagem.

Milhares de professores de escolas públicas e privadas estão se esforçando muito para produzir e entregar, de alguma forma, os materiais impressos (muitas vezes com dinheiro de seu próprio bolso) para os estudantes que não têm acesso à internet para que esses estudantes não se sintam (ainda mais) excluídos do sistema educacional.

Milhares de professores e gestores de escolas públicas e privadas têm se reunido virtualmente para pensar em soluções e produzir respostas que atendam às necessidades de seus estudantes e que os façam aprender mais e melhor, apesar de todos os contratempos.

E você sabe por que os profissionais da educação se empenham tanto para manter os estudantes conectados à aprendizagem?

Aqui peço licença à ilustre Doutora em Ciências da Educação pela Universidade do Porto, profissional por quem tenho muita admiração, a professora e pesquisadora Ariana Cosme, para citar uma frase que tem sido recorrente em suas palestras e que, para mim, que sou uma profissional apaixonada pela educação, faz muito sentido: “A escola não pode perder ninguém do radar.”

E milhares de professores de escolas públicas e privadas sabem disso e fazem isso ao estarem presentes nas vidas desses estudantes (ainda que virtualmente) acolhendo-os em suas dúvidas, seus medos e ajudando-os em suas dificuldades (que não se restringem à aprendizagem).

Porque sabem que milhares de crianças e adolescentes de escolas públicas e privadas continuam aprendendo conteúdos importantes. Sem acesso à escola o futuro desses estudantes poderá ser ainda mais prejudicado.

Porque sabem que para milhares de crianças e adolescentes de escolas públicas e privadas esses vínculos afetivos mantidos com seus professores e seus colegas (por intermédio das aulas on-line) são os únicos vínculos saudáveis que possuem, imersos que estão em situações de vulnerabilidade social. No Brasil, mas não somente aqui, há muitas famílias que não conseguem fornecer o suporte que crianças e adolescentes precisam e merecem.

Porque sabem que crianças e adolescentes de escolas públicas e privadas precisam da manutenção de uma rotina mínima para sua saúde e bem-estar psicológico. E sem a escola (ainda que virtual) essas crianças estarão entregues a uma total falta de rotinas que resultarão em horas e horas de exposição às redes sociais e seus conteúdos pouco educativos e, muitas vezes, prejudiciais ao seu desenvolvimento.

Porque sabem que a escola mantém a mente das crianças e adolescentes focada em objetivos importantes para seu desenvolvimento.

Porque sabem que a escola (com todos os déficits que o ensino virtual escancarou no Brasil) é a única esperança de melhoria de qualidade de vida e ascensão social para milhares de crianças e adolescentes no Brasil.

Por tudo isso, penso que apesar dos problemas enfrentados e por causa deles, cancelar o ano letivo não é a solução. Mas podemos pensar e fazer as soluções acontecerem.

Qual é o papel que cada um de nós pode (e deve) desempenhar para ajudar a diminuir a desigualdade educacional no Brasil? 

O que cada um de nós pode fazer para garantir que crianças com qualquer necessidade especial tenham garantidas as aprendizagens nesse ano letivo tão conturbado para todos, mas que para elas trouxe ainda mais obstáculos a transpor?

O que cada um de nós, como cidadão, pode fazer para ajudar uma criança a ter acesso às aulas on-line, a ter acesso à internet, a um aparelho que a conecte à internet?

O que podemos, como cidadãos, exigir dos governos municipais, estaduais e federal para reduzir esse abismo educacional brasileiro no pequeno, médio e longo prazo?

O que cada um de nós pode fazer para mobilizar nossos parentes, amigos, vizinhos para ajudar essas comunidades mais carentes que estão ainda mais excluídas do sistema educacional nesse cenário de pandemia?

E você o que pensa a respeito? Vamos debater essas ideias?


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